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À vista do meu quarto

À vista do meu quarto

A promessa de não comprar amor

À vista do meu quarto, eu vou escrevendo promessas ao vento.

Promessas que o vento

As leve, e as guarde no tempo.

E que me dê o alento para terminar as promessas,

não fragmentos ou peças,

mas sensações e sentimentos.

 

Que eu nunca me esqueça

Amanhã,

Do que eu sinto agora.

 

E só prometo que se um dia vier a ser pai, então:
"posso não te dar nem metade, do que me foi dado a mim,

mas terás sempre um pai que gosta de ti,

que mostra que gosta de ti,

ao contrário de mim, que é ao contrário de ti,

pois foi-me dado um pai,

que não sei se gosta de mim.

Ou se alguma vez gostou".

Que eu nunca me esqueça

Amanhã,

Desta promessa escrita ao vento, e que guardada no tempo

Voou.

O indesejável

À vista do meu quarto vejo pai, mãe e três irmãos. Vejo pai, mãe e eu, o do meio de três irmãos.

Do mais velho, não falo, com ele, não há relação.

Do mais novo, orgulho-me, mas vai-se embora. Parte-me o coração.

 

 

Resto eu, pai e mãe.

Será que resto também?

Não sou o primogénito, já parto em desvantagem.

Não sou o mais novo, tenho que dar o exemplo e boa imagem.

O que faço é sempre pouco.

Muito ou pouco, pouco importa?

 

"Com esse feito hás-de ir longe" - diz ao longe o pai.

Vá onde for, irei mais longe.

E só pelo meu próprio pé.

 

A desilusão é muita.

De parte a parte penso eu.

Nesta corte não há lugar para bobo, então não sobra espaço para mim.

Dos três, vou restando eu. Carregando o sinete da amargura,

Dos meus olhos,

Dos seus olhos,

Por só ter restado eu.

 

Mas a raiva é combustível,

E o fogo já está cá dentro.

De orgulho alheio não preciso,

Basta-me o meu, e o meu talento.

 

Triste é ser esquecido,

Tristeza é ser ignorado.

Jaz um elefante branco no meio da sala:

Cansado, agastado, desvalorizado, sufocado.

Sem ter para onde ir:

Muito velho para sonhos e guitarras,

Muito novo para soltar as amarras.

 

Muito só,

Órfão de afecto.

 

Futurando o futuro

À vista do meu quarto, encontro-me eu, de diploma na mão.

Será o meu futuro risonho, ou não?

Sonhos, tenho muitos, mas cabem numa mala de mão. Não em mala de porão, nem bilhete de avião, amigos vão outros não, família que se despede fica a sensação, de abandono dos que para trás ficam. 

Que o futuro seja, mas que o seja em Portugal, com um emprego normal. E que nas idas e nas voltas, a minha zona de conforto habitual seja o meu quarto. É natural que ambicione mais do que o igual ao que tenho. Fazer carreira, encarreirando com o meu desempenho. Mostrar ao que venho, profissional me desenho, cheio de arte e engenho para conquistar o meu lugar.

O meu lugar.

Só quero o meu lugar.

Haverá por aí, mil e um, iguais a mim, decididos também como eu me decidi, pois foi a vida que eu quis, a vida que eu escolhi. Sou eu e mais mil, também iguais a ti. Entre os que vêm e vão, muitos desanimam em vão, por não serem então, com razão ou não, os escolhidos que serão, que andarão por aí. Deram tudo de si.

E demos tudo de nós.

Felizardos aqueles, que andam por aí, aqueles que entre mil e um ou mais, iguais a mim e a ti, conquistaram o seu lugar.

O seu lugar.

E aqui estou eu a almejar o meu lugar, entre os outros lugares ou entre os lugares dos outros, e vou com a mesma sensação, de que há mil e um, iguais a mim, de diploma na mão.

Só de diploma na mão. 

O bom amigo que queria ter

À vista do meu quarto vejo o bom amigo que não tenho. O bom amigo que não tive. O bom amigo que não irei, jamais, ter.

Não que ele não exista.

Não que eu não o conheça.

Existe sim. Conheço pois. 

À vista do meu quarto vejo-o a ele, ao bom amigo. Vejo-o quando me vejo, a mim, no reflexo de um espelho. 

 

Sempre me quis ter a mim como meu amigo. Por mais paradoxal e absurdo que o possa parecer, assim, dito em voz alta. Eu, que sempre considerei a amizade a relação mais díficil de criar. De manter. Sim, acima de tudo manter. Uma amizade só pode funcionar com base numa bilateralidade afetiva. O maior laço que une duas pessoas numa amizade tem de ser, imperativamente, a reciprocidade. 

 

Se eu percebi isso, será assim tão difícil exigir o mesmo de outrem?

Não sei.

Provavelmente, nem chegarei a saber.

Se os amigos são a família que se escolhe, então devo ter nascido órfão dessa família.

 

Quero-me escolher a mim e não posso.

O bom amigo que sempre quis ter.

 

Invejo tanto os meus amigos, por poderem me ter como um bom amigo.

Muitos deles nem merecem, se calhar.

Mas são os meus rapazes, com quem eu paro e ando.

Ande por onde andar.

 

À vista do meu quarto, vejo-me a perder.

O meu amigo não sabe dar valor, não faz por mal, é natural, como poderia ele saber? Amizade, mais do que dar e receber é reconhecer. Reconhecendo eu reconheço que sou o bom amigo que eu queria ter.