Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

À vista do meu quarto

À vista do meu quarto

O indesejável

À vista do meu quarto vejo pai, mãe e três irmãos. Vejo pai, mãe e eu, o do meio de três irmãos.

Do mais velho, não falo, com ele, não há relação.

Do mais novo, orgulho-me, mas vai-se embora. Parte-me o coração.

 

 

Resto eu, pai e mãe.

Será que resto também?

Não sou o primogénito, já parto em desvantagem.

Não sou o mais novo, tenho que dar o exemplo e boa imagem.

O que faço é sempre pouco.

Muito ou pouco, pouco importa?

 

"Com esse feito hás-de ir longe" - diz ao longe o pai.

Vá onde for, irei mais longe.

E só pelo meu próprio pé.

 

A desilusão é muita.

De parte a parte penso eu.

Nesta corte não há lugar para bobo, então não sobra espaço para mim.

Dos três, vou restando eu. Carregando o sinete da amargura,

Dos meus olhos,

Dos seus olhos,

Por só ter restado eu.

 

Mas a raiva é combustível,

E o fogo já está cá dentro.

De orgulho alheio não preciso,

Basta-me o meu, e o meu talento.

 

Triste é ser esquecido,

Tristeza é ser ignorado.

Jaz um elefante branco no meio da sala:

Cansado, agastado, desvalorizado, sufocado.

Sem ter para onde ir:

Muito velho para sonhos e guitarras,

Muito novo para soltar as amarras.

 

Muito só,

Órfão de afecto.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.