Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

À vista do meu quarto

À vista do meu quarto

O bom amigo que queria ter

À vista do meu quarto vejo o bom amigo que não tenho. O bom amigo que não tive. O bom amigo que não irei, jamais, ter.

Não que ele não exista.

Não que eu não o conheça.

Existe sim. Conheço pois. 

À vista do meu quarto vejo-o a ele, ao bom amigo. Vejo-o quando me vejo, a mim, no reflexo de um espelho. 

 

Sempre me quis ter a mim como meu amigo. Por mais paradoxal e absurdo que o possa parecer, assim, dito em voz alta. Eu, que sempre considerei a amizade a relação mais díficil de criar. De manter. Sim, acima de tudo manter. Uma amizade só pode funcionar com base numa bilateralidade afetiva. O maior laço que une duas pessoas numa amizade tem de ser, imperativamente, a reciprocidade. 

 

Se eu percebi isso, será assim tão difícil exigir o mesmo de outrem?

Não sei.

Provavelmente, nem chegarei a saber.

Se os amigos são a família que se escolhe, então devo ter nascido órfão dessa família.

 

Quero-me escolher a mim e não posso.

O bom amigo que sempre quis ter.

 

Invejo tanto os meus amigos, por poderem me ter como um bom amigo.

Muitos deles nem merecem, se calhar.

Mas são os meus rapazes, com quem eu paro e ando.

Ande por onde andar.

 

À vista do meu quarto, vejo-me a perder.

O meu amigo não sabe dar valor, não faz por mal, é natural, como poderia ele saber? Amizade, mais do que dar e receber é reconhecer. Reconhecendo eu reconheço que sou o bom amigo que eu queria ter.